O uso do extremismo como meio retórico para, afastando hipótese diversa, afirmar a hipótese que se pretende ver confirmada, é de alto risco, porém eficaz se usado nas situações adequadas.
O extremismo retórico consiste em agarrar-se à hipótese que se sustenta e demostrar de forma aguda e contundente a cabal inviabilidade da hipótese diversa. Para tanto, desenha-se a hipótese diversa de tal forma que a mesma, ilustrativamente, seja plantada no consciente do ouvinte como algo impossível.
O alto risco decorre do fato de o extremismo beirar o deboche ou o escacho, posturas não esperadas do orador com credibilidade, bem como do fato de exigir o pleno controle da linha de raciocínio para evitar-se que, ao revés de se demonstrar a impossibilidade absoluta da hipótese contrária à que se pretende sustentar, acabar por mostrar-se a mesma como possível, quiçá provável.
É imperativo, portanto, que se mantenha distância segura do escacho e do deboche, mantendo a seriedade que credita o discurso, bem como que o controle da linha mental seja rigorosamente seguido, a fim de que efetivamente se mostre de impossível ocorrência o contrário do que se afirma e, portanto, certo o que se sustenta.
No caso acima, o laudo necroscópico indicava a existência de seis disparos atingindo a vítima, sendo um em cada braço, um nas costas e três na face, como se vê abaixo.


De outro lado, conforme constava do laudo de exame de local de crime, havia sido achado um projetil que havia transfixado sua cabeça e permanecido em repouso sobre um papelão, acima do chão.
O projetil abaixo da cabeça determinava a ocorrência de ao menos um disparo contra o rosto da vítima com o atirador posto ao seu lado, em pé. E era de se deduzir que, houvesse a vítima recebido algum dos disparos no rosto e seguir em fuga, não haveria de ser aquele sobre o supercílio (por ser de fatalidade altamente provável).
Assim, restavam duas opções:
a) Ou o atirador atingiu certeiramente a vítima acima do supercílio, alcançou-a e deparou-se com ela já morta em decúbito ventral, atirando-lhe contra as costas, virando-a e depois desferindo-lhe mais dois disparos contra a face, em zonas menos letais;
b) Ou o mesmo acertou-a nas costas e, com a mesma caída ao solo, em decúbito dorsal, após alcançá-la, desferiu os três disparos contra seu rosto, estando as lesões de entrada situadas nos braços a indicar que a mesma os punha à frente do rosto enquanto era alvejada, primeiramente pelos disparos não letais (os dois inferiores), até ser atingida pelo tiro definitivo (o superior, acima do supercílio).
O acréscimo do elemento informativo paralelo relativo à alteração da empunhadura da arma na sequência dos disparos veio a corroborar a linha ascendente das lesões detectadas na face da vítima, permitindo tornar o argumento mais agudo.
Nesse caso, a prova pericial não indicava a sequência dos disparos de forma direta, mas sua análise cuidadosa permitiu sua dedução.
É uma hipótese acadêmica de ocasião em plenário na qual o extremismo poderia, e deveria, ser utilizado de maneira enfática e aguda, pois o manejo de dados do processo gerando conclusões próprias gera confiabilidade perante o Conselho de Sentença, favorecendo outros pontos da narrativa em que, eventualmente, a conclusão não seja tão certa.
