Hoje é o dia que antecede a festa da Ressurreição. E é o dia que sucede a dor da Paixão.
Estamos entre o Gólgota (a ‘caveira’) e o Reino dos Céus.
Vale um minuto pra refletir sobre essa semana, dita Santa, sobre a presença de Jesus em nossos corações e sobre a dor por Ele suportada pra que compreendêssemos disso algum conteúdo.
Condenado, seus açoites, feitos com o uso do flagrum, chicote que tinha nas pontas toda espécie de objetos pontiagudos, como pregos, pedaços de ossos e garras de ferro. Após o açoitamento, lhe puseram um manto, deram-lhe um bastão e encravaram em sua cabeça uma coroa de espinhos, como forma de ironizar o motivo de sua condenação – ‘intitular-se Rei dos Judeus’.
O manto aderiu à carne flagelada, no passo em que a coroa, de espinhos longos e curvos, atingiu nervos cranianos cujo mero toque causa absurda dor (como os nervos trigêmeo, na frente, e o grande ramo occipital, atrás).
Para o caminho da paixão, arrancaram-lhe o manto, levando a carne aderida. Em seu pescoço, uma placa com a inscrição I.N.R.I. (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum). E sobre si o patibulum, que crendo-se de oliveira e medindo entre 230 a 260 centímetros, tinha algo em torno de 26 a 30 quilos de peso, a ser carregado por um caminho apedregulhado com alguma coisa próxima de 650 metros.
Jesus não carregou sua cruz. A cruz é a stipes (stauros, ou estaca, em grego helenístico), a viga, na qual se pregava, e pregou, o patibulum. Quando usada apenas a viga, chama-se crux simplex, mais facilmente construída e mais rápida para matar os condenados, nela amarrados ou pregados (afixio). Era usada às vezes para empalamentos (infixio). O uso de uma peça horizontal amarrada ao topo forma a crux comissa (ou patibulata, sem cimo), ou a crux immissa (ou capitata, com cimo).
Usualmente nos acostumamos à imagem de Cristo na cruz immissa, o que se deve (acredita-se), à afixação da placa (aquela que carregou no pescoço) no topo da stipes após o término de sua crucificação, que transmite uma certa impressão de sua saliência.
Sua cruz era comissa (embora haja correntes nos dois sentidos). A stipes tinha quase cinco metros de altura e pesava em torno de setenta quilos.
Foram 317 anos de cristianismo primitivo até que Constantino gravasse o chi-ró (as primeiras letras de Cristo) nas insígnias romanas. Antes disso, além de Pedro, açoitado e crucificado invertido, ou Paulo, decapitado, é absolutamente incalculável o número de pessoas que, por professarem irrefutavelmente a fé em Cristo foram mortas de forma insana e cruel.
Vão dizer: Homens matam. De todos os lados. Mas peço licença, pois o viés é outro.
Ontem nos silenciamos diante da dor de Cristo. Amanhã celebraremos seu renascimento.
Hoje é tempo de espera e reflexão.
Não me dei a contar o que li sobre religião na vida. Tampouco me importa. Mas dezenas de milhares de páginas de história das religiões me trouxeram apenas uma certeza: Cristo é o tradutor do Sagrado para o coração dos homens. Quer compreender a religiosidade? Estude. Quer buscar a santidade? Ouça o Cristo.
E neste sábado ele nos dá, em suas falas, duas lições a remeter a uma terceira.
Na sexta, crucificado, humanizou-se e sentiu a dor. Bradou: ‘Eli, Eli, Iamá sabactâni’ (‘Senhor, por que me abandonaste?’ (Mt, 27:46). Resignado em seu destino, descansa o espírito à espera do encontro com o Pai: ‘Está consumado’ (Jo, 19:30). E por fim, consuma sua fé: ‘Nas tuas mãos entrego meu espírito’ (Lc, 23:46).
No domingo, já não mais homem, mas apenas Deus entre nós, exsurge aos seus apóstolos para, a um só tempo, fundar o ponto central da escatologia cristã (todos renascem no encontro com Deus, simbolizada na ressurreição do Cristo), bem como para dizer, para muito além de dogmas e doutrinas, a essência de tudo pelo quê viveu e morreu: ‘A paz esteja convosco’ (Jo, 20:19).
Curiosamente, é justo num debate sobre o verdadeiro conteúdo da ressurreição (o debate sobre de quem seria a esposa dos sete maridos, quando estes todos ressuscitassem), que Jesus diz aos saduceus seu mandamento maior, que nos serve de caminho para a paz que haverá de nos acompanhar: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Mt, 22:39).
A Paixão e a Páscoa são os momentos extremos da fé cristã, a par das sensibilidades natalinas e de outras celebrações ocasionais. E a Aleluia as separa, representando a passagem da compenetração na dor da Paixão, que une na dor de Cristo as agonias de todo cristão, à celebração da cura pela Ressurreição havida na Páscoa, mensagem eterna escrita com sangue sagrado a nos dizer que todos renascemos, sempre, na nossa fé e nas nossas convicções, fazendo possível um reino de paz e uma vida de santidade.
Só depende de nós.
Ame o próximo como a ti mesmo. Que a paz esteja convosco. Feliz Páscoa.

2 respostas para “Entre o Gólgota o Reino dos Céus”
Adorei o texto, Douglas! Aliás, gostei muito de tudo, de sua página, dos conteúdos…. Um abraço e fique com Deus!
Obrigado, Alexandre.
Fico feliz pelo conteúdo ter lhe agradado, especialmente nesse post que me é tão caro.
Um fraterno abraço e esteja sempre com Deus!